Relato de um ex-analfabeto financeiro
Eu cresci ouvindo as pessoas falarem muitas coisas que fazem o dinheiro parecer um mal necessário. Talvez por isso, durante uma época da minha vida, achei que o capitalismo era o grande responsável por todos os problemas da sociedade. Mas um dia, assistindo a um telejornal, me incomodou o fato de eu não fazer a menor idéia do que significava “a bolsa subiu” ou “o dólar caiu”. Intrigava-me também como uma declaração de determinadas pessoas podia provocar todo este movimento para cima ou para baixo no mercado. Enfim, eu era um verdadeiro analfabeto financeiro. E se tem uma coisa que eu não gosto é me sentir ignorante. Foi então que eu resolvi ler alguns livros sobre finanças que me mostraram que a moeda não tem um lado melhor do que o outro.
De um lado da moeda nós temos aqueles que fazem tudo por dinheiro. De outro, aqueles que são ignorantes sobre ele. Critica-se com razão os primeiros, mas nada se diz com relação aos segundos. E isso não é nada bom, pois quando você ignora algo que impacta a sua vida você geralmente se dá mal. A prova disso é que o número de endividados só cresce ao invés de diminuir. E como se não bastasse a nossa péssima distribuição de renda, os pobres insistem em aumentar o patrimônio dos ricos ao tomar dinheiro emprestado a juros que ainda estão entre os maiores do mundo. Portanto, os ignorantes sobre dinheiro que ajudam a aumentar a desigualdade social deveriam ser tão criticados quanto àqueles que são considerados gananciosos.
O mais triste sobre os analfabetos financeiros é que, além de não saberem o mal que estão causando, eles até que têm seus motivos para serem assim. Seja em casa, na TV ou no Cinema o dinheiro é sempre mostrado como um problema. Seus pais vivem dizendo para você não ser ambicioso e muitos dos vilões da novela das oito e do Cinema são monstros que fazem tudo por dinheiro. A ironia desta história reside no fato de que a Globo e Hollywood lucram absurdos graças ao velho clichê: “dinheiro não traz felicidade”.
Além dos que fazem coro contra o dinheiro o ensino fundamental é totalmente omisso sobre o assunto. Você é obrigado a estudar a fórmula química de determinados elementos e sai da escola sem saber nada sobre dinheiro. Mas a não ser que você se torne um Químico ou que aprenda a fazer a fotossíntese para sobreviver, talvez fosse mais útil aprender sobre o funcionamento dos mercados para saber como tirar proveito disso para ter uma vida mais digna.
Aprender sobre o funcionamento dos mercados implica em encarar as notícias de uma forma diferente. Implica em deixar de pensar como um agente passivo e passar a pensar como um agente ativo da economia. Implica em deixar de reclamar simplesmente e começar a agir. O analfabeto financeiro ou ignora muitas das notícias sobre o mercado ou as interpreta de um modo totalmente diferente daqueles que não são.
Por exemplo, o analfabeto financeiro que ouve dizer que os Bancos estão lucrando cada vez mais simplesmente ficará indignado. Já aqueles que entendem um pouco sobre o mercado tentarão encontrar um modo de fazer parte da festa. Você pode fazer isto comprando ações ou participando de algum fundo de investimento em ações destes Bancos. Isto não é tão difícil como os analfabetos financeiros pensam e quando isto acontece você passa a ouvir uma notícia sobre o lucro dos Bancos sem reclamar tanto. Eu não estou dizendo que todos aqueles que reclamam do lucro dos Bancos e não tem ações destes são analfabetos financeiros. Tampouco digo que devemos ficar calados diante de notícias deste tipo. Eu mesmo já fiz um post criticando e ironizando os Bancos. Mas o fato é que quando você deixa de ser um analfabeto financeiro você sempre pensa (mesmo que não faça) em como tirar proveito de um modo ativo (investir) e não só passivo (reclamar) das notícias que recebe.
Um exemplo mais sutil de um modo diferente de encarar as notícias ocorre quando você ouve dizer que a construção civil está crescendo muito e ainda tem espaço para crescer mais. Você pode, simplesmente, pensar que agora, graças ao bom Deus e ao molusco que ocupa o cargo mais importante deste país, você poderá finalmente comprar a sua casinha devido à expansão do crédito imobiliário. Por outro lado, você também pode enxergar aí uma boa oportunidade de investir o seu dinheiro nas empresas do setor de construção civil. Em outras palavras, você pode aproveitar o bom momento da construção civil para ser simplesmente ser um credor – pagando um dos maiores juros do mundo – ou para ser um investidor tirando proveito do potencial de ganho que o momento pode proporcionar.
Quando você percebe que o dinheiro não é o céu e nem o inferno você volta para a Terra e passa a encará-lo de um modo mais pragmático. Eu acredito que o dinheiro não seria motivo para tanta discussão nas mãos de uma civilização mais evoluída, pois se trata apenas de um número, um pedaço de papel, uma abstração que sozinha não serve para nada. Ele só passa a fazer algum sentido a partir do momento que nós seres humanos lhe damos um significado. E dependendo do significado e da intensidade que nós lhe atribuímos ele pode implicar em coisas boas ou coisas ruins. E não pense que só os ambiciosos estão errados, pois os analfabetos financeiros têm um papel importante no desequilíbrio que existe no mundo capitalista. Resta esta realidade vir à tona de algum modo. A não ser que isto não seja interessante pelo simples fato de que é melhor para os que detêm o capital que o povo continue ignorante… achando que o dinheiro é o problema em si.
“O juro composto é a força mais poderosa do Universo” – Frase atribuída a Albert Einstein.

Beck, quais livros sobre finanças você leu? O “Pai Rico Pai Pobre” de Robert Kiyosaki é bastante interessante, e contém algumas idéias deste post. Eu ainda não tenho opinião formada sobre este livro e assunto, gostaria de formá-la lendo outros autores.
Com certeza “Pai Rico Pai Pobre” foi o livro que mais me influenciou. Em minha opinião não é um livro muito prático do qual você poderá tirar lições para aplicar imediatamente. Mas o grande mérito do livro é lhe mostrar outra maneira de encarar o dinheiro. Também li Mercado Financeiro e Investimentos. O primeiro começa muito bem mas depois desdobra em cálculos que não me chamaram muito a atenção. O segundo é bem básico, recomendado para que não sabe nada como era o meu caso.
[]‘s
Beck Novaes
Os livros do Mauro Halfeld são muito bons. Se vc esta pensando em investir na bolsa, eu tambem recomendaria Os Axiomas De Zurique
Beck, eu rí alto e forte com “o molusco” aqui na Avanti! heheheheh
Aproveitando as recomendações de livros, creio que o seu post atinge alguns pontos falados no livro “Ética Protestante e o espírito do Capitalismo” – Max Weber.
Este livro faz uma analogia entre a Ética Protestante, ascendente na época da publicação do livro e o Capitalismo mostrando que estas duas estruturas de pensamento estão intimamente ligadas. O Capitalista original, sim, vê o dinheiro como uma religião de maneira que investir dinheiro, para ele, é como louvar a Deus. Há algo relacionado ao “fazer por merecer”, ao merecimento. São valores éticos que se aplicados corretamente no mundo dos mercados, e na vida, podem trazer lucro ao praticante.
Isto vai ao encontro do que você está dizendo a respeito das diferentes visões de uma notícia.
Éééé, o buraco é mais embaixo… heheheh, Sr. Molusco.
Beck,
Estava conversando com o Gilmar sobre finanças e ele me disse que você tinha um blog.
Acabei ficando curioso em conhecê-lo. Pude notar que muitos dos assuntos que você têm discutido são também de interesse meu, e não obstante, criei um blog em uma época parecida com a sua e com um conteúdo um pouco equivalente.
Vou colocar o link aqui: http://rafaeljoia.blogspot.com
Tomarei a liberdade de referenciar o seu blog no meu blog. Abraços!
[...] para conseguir um bom emprego. Talvez também pelo fato de eu ignorar o dinheiro como eu mostrei neste outro post. Mas a verdade é que eu só fui ter prazer pelo estudo quanto eu encontrei a informática. Eu não [...]
sera que vai agora