O Mercado é o Grande Culpado
Todo mundo passa por uma época na vida em que procura o emprego perfeito. E se você for como eu você deve invejar os artistas e atletas famosos que, ao que tudo indica, possuem profissões que mais perto chegam da perfeição. Sempre que vou a um show eu fico imaginando como deve ser gratificante ver milhares de pessoas empolgadas com aquilo que é fruto do seu trabalho. Enfim, os artistas e atletas famosos se divertem muito, possuem reconhecimento e ainda são pagos para isso.
Mas eu trabalho com TI, não sou famoso, não ganho como eles e vira e mexe eu tenho que ficar até mais tarde no trabalho. No início da minha carreira eu achava que o problema era o meu emprego (não é a toa que em um só ano em passei por quatro empresas diferentes). Mas o tempo passou e a minha percepção mudou. Hoje eu sei que é muito difícil ser tão bem sucedido quanto estes artistas e atletas, mas por ter finalmente conseguido formar uma “tese” do motivo pelo qual as coisas são assim hoje eu consigo ser mais feliz com o que eu tenho (embora isso não signifique comodismo).
Para explicar o que eu tenho em mente eu vou utilizar o termo “sucesso” para designar as três coisas que eu mencionei no inicio: diversão no trabalho, reconhecimento e retorno financeiro. Posto isto, a tese se baseia na premissa de que para alcançar o sucesso você depende de fatores internos e fatores externos. Os fatores internos são tudo aquilo que depende apenas de você: em resumo, você precisa ser bom no que faz. Os fatores externos são aqueles que você não tem controle, dentre eles pretendo focar num dos mais importantes: o mercado.
Uma das coisas que mais deixa o profissional de TI frustrado são os prazos. Para os profissionais de TI o tempo parece andar para trás, pois não é incomum alguém lhe pedir para fazer algo para ontem. E este é um belo exemplo de um fator externo, algo que não depende de você. É claro que em toda profissão estamos à mercê de coisas que não dependem de nós. Mas o ponto é: se não depende de você depende de quem? Quem é o culpado por nós ficarmos trabalhando até mais tarde para cumprir estes prazos malucos? Obviamente existem casos onde as coisas são tão mal planejadas que poderíamos culpar uma ou outra pessoa, mas na maioria dos casos não podemos apontar o dedo para alguém – a não ser que você conheça alguém chamado Mercado. E isso funciona mais ou menos assim: Suponhamos que as pessoas na direção da sua empresa sejam boazinhas e compreensivas como você sempre sonhou. Eles não vão te pedir para ficar trabalhando até mais tarde. Mas aí a empresa concorrente faz o contrário e começa a ganhar os melhores clientes graças ao “esforço” dos seus funcionários. Conseqüentemente aquela empresa começa pagar melhores salários e a sua empresa começa a pagar mal. Então, para ganhar melhor, você vai trabalhar naquela empresa que também lhe pedirá para trabalhar até mais tarde (só que você ainda não sabe disso). Desta forma, as pessoas que dirigem a sua empresa perceberão que elas não podem ser boazinhas e a ultima empresa “boazinha” do mercado assim o deixa de ser.

Mas voltando a falar dos artistas e atletas, por que será que para eles o sucesso parece mais provável? Oras, por acaso você conhece alguém que não gosta de música ou pelo menos de assistir algum tipo de esporte? Agora, você deve conhecer muita gente que não está nem ai para TI. Isto quer dizer que o mercado dos artistas e atletas é muito mais amplo. As pessoas estão sedentas, independente da época do ano, para “consumir” o que eles “produzem”. Quando você tem um mercado sedento por alguma coisa, mesmo aquelas pessoas que não são boas no que fazem conseguem se destacar com mais facilidade. Assim, durante uma época no Brasil bastava juntar cinco camaradas, ensaiar uns passinhos e colocar um óculo escuro na testa para fazer sucesso como a mais nova sensação do pagode nacional. Ou seja, temos aqui uma balança na qual de um lado está o maior peso do Mercado e do outro o peso do seu valor individual. Isso não significa que se o mercado é amplo todos conseguem se destacar, mas sim que a probabilidade de se atingir aquilo que eu chamei de sucesso é maior.
Porém nem tudo está perdido, pois uma característica boa dos mercados é que eles podem evoluir. Eu cheguei a esta conclusão recentemente graças à oportunidade que eu estou tendo de trabalhar no mercado Americano (especificamente NY). Aqui as pessoas também ficam até mais tarde algumas vezes, no entanto, como o mercado é amplo (afinal de contas muito mais gente aqui é sedenta por TI) isso acontece com menos freqüência. O fato é que eles atingiram um tal nível de especialização em serviços que não adianta ninguém ficar se matando de trabalhar para ter alguma vantagem competitiva. Ou seja, se o seu concorrente não faz isso você também não precisa fazer e todos ficam mais felizes assim.
Por fim, mesmo que ele não faça um show por semana, toda vez que Steve Jobs faz uma apresentação ele é ovacionado. Steve Jobs se diverte no trabalho, tem reconhecimento e ganha muito bem para isso. Eis que o sucesso em TI também é possível, embora seja mais difícil. E quem sabe um dia no Brasil o mercado não evolua a tal ponto em que todos tenham maiores possibilidades de chegar lá? Isso não é utopia, não é provável em poucos anos, mas é possível no futuro.
Steve Jobs Ovacionado

Salve Beck! Parabéns pelo texto e pela clareza de raciocínio. Quase poesia pura!
Abraços,
Alex
Quem disse que precisa ser “famoso” para ser feliz… ou que não existem superstars em TI… belíssimo exemplo sobre o JOBS.
Parabéns pelo artigo!
Olá Fredlee,
Para mim o que importa na fama é o que a associa ao reconhecimento. Uma coisa é ser famoso como Albert Einstein cujo feito em vida jamais será esquecido. Outra coisa é ser famoso como um ex Big Brother, fruto da manipulação do imaginário social pela poderosa indústria da TV.
Beck ótimo texto. Muito bem escrito e com belíssimas comparações. E bem interessante saber que essa e uma visão quase que global na nossa área. Continue com os ótimos posts
!
Ahh esqueci de colocar meu nome completo! no comentário acima
Vc tocou num ponto que evito colocar em meus pontos de vista relacionados a mercado de trabalho, que é o mercado norte-americano. Eles estão anos luz a nossa frente, mas se não começarmos a mudar, nós que somos a base de TI no Brasil, a mudança dificilmente virá de cima! =D Excelente texto! Ved
Muito bom, acredito nisso que vc fala, porem temos que considerar que o fator sorte vem implicito nisso tudo como um diferencial a mais. O que quero dizer é que muitas vezes nao basta ser bom, tem que ter influencia. Quem nunca sentiu-se capaz de assumir um cargo, que nao lhe foi disposto? Mesmo que isso nao venha a ser um grande ou a principal coisa de vc alcançar o caminho do “sucesso”, mas pode ser o que vai lhe ajudar na beira da praia.
Falo isso por experiencia propria,
[]‘s
Olha só Beck Novais o Max Gehringer da TI! rs
Ótimo texto. Concordo plenamente com isso, segue o meu comentário todo picado hehehe.
O mercado é voraz e geralmente vence na troca de muito sangue alheio, mas acredito que isso dificilmente mude. TI mesmo tendo projeto é em primeiro lugar Serviço que é visto sempre como entrega e na cabeça da maioria entrega o quanto mais rápido melhor. Sendo assim acredito que nem tao cedo isso mude.
Comentando o que o Fredlee falou sobre fama vejo como você Beck.
Fama(igual)Reconhecimento(geralmente igual)Muito trabalho duro.
Por fim deixo uma provocação: Pelo que eu sei Steve Jobs nunca programou uma linha se quer e bebeu muito do sangue do Steve Wozniak, isso não quer dizer que ele não tenha trabalhado duro para conquistar tudo isso, mas é algo para se pensar.
Parabéns Beck! Excelente post!!! Para ter sucesso a essência é gostar do que faz!!!
Mais uma vez, parabéns!
Eu vejo um pouco mais simples: sucesso nos projetos é alcançar as metas pelas quais o projeto foi iniciado (nada a ver com custos, escopo ou prazo – só os fins importam). Se o cliente tem como objetivo alcançar X, e para isso o usuário tem que alcançar X1,X2,Xn e o projeto conseguiu isso, então tivemos sucesso. Mas se a gente nem saber onde quer chegar, é difícil escolher o caminho que vamos tomar.
O problema do setor de TI, do meu ponto de vista, é a enorme separação que existe entre os processos e metas de negócio e as tecnologias utilizadas para dar suporte para os processos responsáveis por alcançar as metas. Com isso, a área de TI (seja interna ou externa) nem sabe quais são as metas do projeto, por n motivos. As próprias empresas têm equipes de TI que são separadas das demais áreas de negócio. Quando elas chegam com uma demanda para as empresas do setor de TI, essa demanda já está “alienada” dos objetivos e processos de negócio.
Poucas vezes, a empresa de TI tem um feedback dos resultados do projeto. Com isso, nem sabe dizer se teve ou não sucesso. Só sabe se conseguiu entregar dentro do custo, escopo e prazo determinados. O sucesso aí, é avaliado em termos de gerenciamento de projeto, não termos de metas do projeto.
Concordo que o culpado são as condições do mercado que você colocou no post. A demanda é alienada da oferta e vice-versa. Acho que falta enxergar o “quadro todo”. Se a gente só olha para as árvores não consegue enxergar a floresta. Se a gente só olha pros meios, não consegue enxergar os fins.
Resumindo o meu enorme texto imenso acima: as áreas de negócio encaram TI como um suporte (no sentido pejorativo mesmo), não como uma área estratégica. E do lado de TI, TI é encarado como o fim em si, não como estratégia.